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Copa do Mundo

Homo Cordialis F. C.

A antropologia da Copa

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O historiador Sérgio Buarque de Holanda (sim, o pai do Chico), em seu importantíssimo livro “Raízes do Brasil”, descreve de forma precisa a sociedade brasileira. Para Sérgio, o brasileiro é o “homem cordial” em essência. A tão difundida generosidade brasileira, tem raízes muito mais profundas na formação do caráter do nosso povo. É uma máscara que esconde a fragilidade do indivíduo perante à sociedade. Nas palavras do próprio Sérgio:

“No ‘homem cordial’, a vida em sociedade é, de certo modo, uma verdadeira libertação do pavor que ele sente em viver consigo mesmo, em apoiar-se sobre si próprio em todas as circunstâncias da existência. Sua maneira de expansão para com os outros reduz o indivíduo, cada vez mais, à parcela social, periférica, que no brasileiro – como bom americano – tende a ser a que mais importa.”

Essa hospitalidade, esse “horror às distâncias”, faz com que o brasileiro traga para perto de si, de forma amável e igualitária, quem quer que seja. Do comerciante que precisa fazer de seu freguês um amigo ao santo que precisa ser humanizado. A cordialidade é um mecanismo social que dá ao brasileiro um campo de batalha “democrático”, um jeitinho de nunca deixar a festa acabar-se por completo. Porque, como todos sabem, nós adoramos uma festa, não é mesmo?

Nada une mais o brasileiro como nação que uma Copa do Mundo. Bandeiras verde e amarelas guardadas há 4 anos saem das gavetas para decorarem janelas, carros e escritórios. O frenesi midiático toma conta da programação de TV, os anunciantes desesperados tentam linkar suas marcas ao evento. Em toda Copa o ritual é o mesmo. Porém, em 2014, algo está diferente.

Pela primeira vez como país plenamente democrático, o brasileiro presencia a chegada do evento mais importante do futebol mundial. Mas apesar do alarde inicial, sediar tal evento não é tão fácil. Desde o anúncio em 2007, muito foi prometido e pouco se viu concretizado. Do projeto inicial de expansão de malha ferroviária, aérea e rodoviária, estamos entregando praticamente o mínimo necessário para que o evento aconteça. Isso sem falar nos estádios…

Mas o brasileiro está ciente disso tudo. Do garotinho que sonha jogar num clube na Europa, passando pelo trabalhador da Classe C até a PresidentA da República. Nós sabemos que o governo emprestou mais dinheiro do que devia através do BNDES, sabemos que algumas obras foram superfaturadas e outras virarão “elefantes brancos” no meio da floresta amazônica. Sabemos que nossa estrutura não é nem de longe a ideal para receber esse evento.

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Cordialmente, o brasileiro aceita tudo. Porque nada pode estragar o evento pelo qual ele sonhou tanto. Ver sua Seleção jogando em casa, quem sabe levantando a taça para delírio das multidões, que com a cara pintada de verde e amarelo, chorarão lágrimas de alegria num carnaval fora de época pelas ruas do país inteiro.

O brasileiro foi às ruas um ano atrás, mas agora, na iminência do evento, é contra protestos, greves e paralisações. O ufanismo toma conta, dizem que o que está feito, está feito. Que não vale a pena reclamar a essa altura. Se acovardam no momento em que os holofotes se viram para nós. Os grevistas do transporte e educação são hostilizados nas ruas, quando deveriam ser ovacionados. Ora, que melhor momento para protestar senão num grande evento como esse?

Mas o homem cordial prefere evitar o conflito, afinal de contas, é a C-O-P-A-D-O-M-U-N-D-O. Prefere esconder essa mancha dos visitantes ao invés de pedir ajuda. Prefere parecer igual quando na verdade é desigual. Prefere dar aquela varridinha para debaixo do tapete na esperança de ninguém olhar embaixo. Porque o brasileiro é assim, cordial a ponto de preferir esconder seus problemas sociais só para não estragar seu esporte favorito. Nossa hospitalidade não tem mesmo fim.