Warning: Parameter 1 to wp_default_scripts() expected to be a reference, value given in /home/storage/f/26/4c/patusqueiro/public_html/wp-includes/plugin.php on line 601

Warning: Parameter 1 to wp_default_scripts() expected to be a reference, value given in /home/storage/f/26/4c/patusqueiro/public_html/wp-includes/plugin.php on line 601

Warning: Parameter 1 to wp_default_styles() expected to be a reference, value given in /home/storage/f/26/4c/patusqueiro/public_html/wp-includes/plugin.php on line 601
estereótipos

Cinquenta Tons de Cinza: o filme e seus tons

fifty-shades-of-grey-fifty-50

Aos impacientes de plantão, adianto-me: não, eu não gostei do filme. Porém, ao contrário do que você, nobre leitor, deve estar pensando neste momento, meu desgosto com a película em questão nada tem a ver com teor softporn ou a temática sadomasoquista. Minha intenção aqui é levantar um tema que, preocupantemente, pouco se tocou sobre o(s) livros/filme, os estereótipos. Segundo o dicionário Michaelis:

Estereótipo sm (estéreo+tipo): Imagem mental padronizada, tida coletivamente por um grupo, refletindo uma opinião demasiadamente simplificada, atitude afetiva ou juízo incriterioso a respeito de uma situação, acontecimento, pessoa, raça, classe ou grupo social.

Guarde esse conceito na cabeça, retornaremos nele mais a frente.

“Cinquenta Tons de Cinza” é o primeiro livro da trilogia bestseller escrita pela britânica Erika Leonard James, foram mais de 10 milhões de cópias vendidas apenas nas primeiras semanas. O conteúdo erótico logo virou o foco das atenções e o livro adquiriu, pejorativamente (porém merecidamente) a alcunha de “pornô para mamães”. E. L. James baseou sua história numa fan fiction de Crepúsculo que escrevera, mudou o nome dos personagens e os vampiros brilhosos deram lugar ao chicote e aos sex toys. A abordagem mais adulta, de certa forma, me agrada, contudo, a história de E. L. James em nada tem de adulta. É mais pobre que Crepúsculo (acredite se quiser!), previsível, machista e moralista.

A estudante de literatura Anastasia Steele (Dakota Johnson) precisa fazer um favor a sua amiga de quarto Kate (Eloise Mumford) e entrevistar um poderoso CEO da cidade para o jornal da faculdade. Ao chegar no luxuoso prédio da empresa, a ingênua Anastasia conhece o enigmático Christian Grey (Jamie Dornan). Após o primeiro encontro, uma estranha relação começa a desenrolar entre os dois e Anastasia percebe que Grey está interessado por ela. Porém, o mundo de Christian é bem diferente e obscuro do que ela imaginava. Ele propõe um relacionamento controlado de acordo com seus próprios termos de submissão e dor.

228502

O roteiro fraco e unidimensional esquece o restante do enredo e, como num conto erótico, mantém o foco apenas nas partes interessadas. Os diálogos são pobres e na maioria das vezes acabam virando uma piada involuntária (acredito que devam soar melhor escritos no livro). As cenas no “quarto do prazer”, como carinhosamente Grey o apelidou, são tediosas e nada tem de eróticas. Demérito da direção fria de Sam Taylor-Johnson, que mantém a câmera parada, distante e sempre passiva. É um sexo plastificado e industrializado, longe da perversão de um “Ninfomaníaca” (2013) de Lars Von Trier ou da repugnante cena de estupro em “Irréversible” (2002) do francês Gaspar Noé. Definitivamente, “Cinquenta Tons de Cinza” não é um filme para adultos, pelo menos não para adultos com mentalidade de adulto.

De bom mesmo, só a trilha sonora. Os créditos iniciais são ao som de I Put A Spell On You, música eternizada na voz de Nina Simone, aqui cantada por Annie Lennox. Além da música tema Love Me Like You Do, de Ellie Goulding, o longa conta com várias excelentes canções que vão de Beyoncé a Frank Sinatra, até Rolling Stones. Vale destacar também o trabalho de Danny Elfman na condução da música incidental. O compositor favorito de Tim Burton faz aqui um de seus trabalhos mais diferentes, sua música é responsável por dar ritmo e tensão às cenas mais picantes.

holding-fifty-shades-of-grey

Lembra-se que falei sobre estereótipos mais acima? Pois bem: por baixo de sua falsa pretensão de ser erótico e desmistificar o mundo BDSM (o que de forma alguma o filme faz), “Cinquenta Tons de Cinza” esconde uma visão machista e moralista de nossa sociedade.

É uma proposta muito diferente da forma libertária feminista como o livro é vendido. Explico a confusão: o fato do livro levar o tema sexo para o grande público feminino quebrou vários tabus e fez com que ele se tornasse uma bandeira da liberdade feminina. Apesar de criticar que o conteúdo erótico do livro/filme seja, de fato, erótico, reconheço que todo o burburinho ao redor da história fez bem à discussão feminista. Contudo, poucos percebem o desserviço que os estereótipos de Christian e Anastasia provocam no público.

Christian Grey, como bem definiu Marcelo Hessel, é “uma mistura de Bruce Wayne com rei do camarote”. É o príncipe moderno, sua carruagem agora é um helicóptero (mulheres suspiraram nessa cena na sessão em que eu estava). Anastasia é a pobre donzela que encontra seu príncipe, sua única chance de sair da realidade em que vive. A forma como Anastasia se encanta, não só pela beleza de Grey, mas por seu estilo de vida é tão problemático e recorrente nas histórias adolescentes, que fico boquiaberto quando esse tipo de literatura é ovacionada por quem se diz lutar por direitos iguais. A história fantasiada de romance objetifica ambos: a futilidade de Grey e a fragilidade exacerbada de Anastasia. Colocam homem e mulher no mesmo clichê preconceituoso de séculos atrás. Grey é machista (sim, meninas: é possível ser machista sendo romântico), Anastasia é moralista.

O que pessoas fazem entre quatro paredes, se é de comum acordo e prazeroso para ambas, só diz respeito a elas e, por mais moralista que nossa sociedade ainda seja, não há nada de errado nisso. O problema de “Cinquenta Tons de Cinza” não é sobre quem vai ser o submisso na cama, mas sim de quem é o dominado socialmente. Repense o filme sob essa perspectiva.